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2015_03_11-topocoluna

Amigo paralelo

São exatamente duas horas e quinze minutos, estou atendendo um cara com o dobro do meu tamanho, ele é conhecido por aqui como montanha, deve ser alguma infeliz associação com sua altura. Nessa noite específica, assim que o montanha chegou no balcão eu soube o que ele ia pedir: “ – Duas Stellas por favor mocinha”. O movimento era pouco e eu reconhecia cada pedido e cada cidadão que ali estava. A menina ruiva com sardinhas tomou refrigerante a noite toda, o policial da minha rua, sim os policiais também vão a festas e mais, eles entram de graça! Pediu um energético. O cara que estava dançando gordinho gostoso pediu duas doses de vodka, já era de se esperar dancinhas assim. Cerca de uns vinte minutos depois o chefão máster me liberou para ir pra casa, pois não precisaria de dois caixas a noite toda, pensei “opa, partiu.” Na inocência da vida saí do abrigo do meu caixa, peguei minha bolsa, dei tchauzinho de miss universo (imitando os vocalistas das bandas) e me joguei. Na saída da chopperia tirei o celular da bolsa para ligar para meu querido papai ir me buscar. Após novecentas tentativas sem retorno, lembrei que eu tinha um cartãozinho de táxi na carteira, decidi ligar. Dando-me falsas esperanças a operadora decidiu deixar chamar uma vez: TUUUUUUUUUU e aí então: “Sua chamada está sendo encaminhada para a caixa de mensagens”, tu tu tu tu. Eu só conseguia pensar: Pronto, agora ferrou de vez. Com vergonha de voltar para a chopperia continuei discando o número de meu pai e torcendo para que de repente o celular criasse asas e saísse voando suavemente até o travesseiro de seu respectivo dono para que aí então ele pousasse e sem querer entrasse no volume máximo e disparasse aquele despertador de galo que acorda até as almas mortas no cemitério. Foi aí que escutei vozes de conhecidos que interromperam minha criatividade. Curiosa como sempre segui os sons até o alvo. Sentindo-me uma agente da C.I.A fui discretamente até a esquina e espiei um grupo de amigos que aparentemente decidiram sair apenas com outros homens. Sem querer interferir voltei sorrateiramente para meu cantinho escondida e abandonada. Mas já era tarde, como agente fui avistada e descobri que para isso eu não servia. – Oi Pamela! Tudo bem? -  Oiii Júlio, to bem, só um pouco perdida, não consigo ninguém pra vir me buscar. Tu já tá indo para casa? – Na verdade ainda não, vou ir fazer um lanche com a banda, mas se quiser tu podes ir comigo depois. Sem opções e animada com a ideia do lanche juntei-me ao Júlio e aos seus amigos músicos. Tomei minha cerveja preferida e comi um sanduíche. – Júlio, tu está de carro? – Não, estou de pé. – De pé Júlio? Por que tu não me avisou? – Sei lá, achei que tudo bem pra você. – Até estaria, se não fosse essa chuva desabando lá fora; – Ah, relaxa a gente espera ela passar e depois vai. Eram quatro e meia da manhã quando a chuva deu uma trégua, eu e o Júlio saltamos das cadeiras para tomar o rumo de casa. Estava muito escuro, cidade pequena tem pouca iluminação, percebendo o receio de nós dois resolvi quebrar o clima: – ô Júlio tu votou em quem? E assim começou o longo assunto. Passamos por esquinas falando sobre vida fora de Terra, por ruas relembrando o passado, por calçadas contando sobre nossos namorados e até por vielas rindo de coisas inúteis. O tempo voava e nós seguíamos caminhando. Morávamos longe e em momento algum reclamamos da distância. Ameaçou chover de novo e apertamos o passo. O Júlio me deixou na porta de casa para ter a certeza que eu havia chegado sã e salva. Pelos meus cálculos na hora que ele devia estar quase chegando em casa, desabou a chuva. Coitado do Júlio, além de ter ficado gripado teve ter se arrependido de ter me levado. Depois dessa noite nunca mais conversamos, mas o que ele não sabe é que ele foi o melhor amigo paralelo que eu já tive.

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